quarta-feira, 17 de junho de 2015

A “favela de Jaraguá” precisa acabar. Mas como?

Estátua da liberdade de frente para a Vila de Pescadores, com vista para o Porto. Foto de autoria desconhecida*.


Quando eu era menina, meus pais, com muita dificuldade, compraram um veleiro. Este barco ficava na Federação Alagoana de Vela e Motor, um lugar que fica ao lado da chamada “favela de Jaraguá” e que sempre foi frequentado pela elite do estado e, obviamente, por políticos também.
A razão da FAVM ter escolhido tal localização é justamente a mesma do pescadores: os barcos ficam protegidos pelo Porto. A diferença, porém, é que os pescadores estavam ali muitas décadas antes, desde que o Porto nem era Porto, mas sim um ancoradouro. 

Acima: Pescadores de Jaraguá, década de 1930 - Foto: Arquivo Público de Alagoas
Abaixo: Família de pescadores de Jaraguá resistem à remoção, 2015 - Foto: Abrace a Vila
Eu era muito nova, não sabia a origem da “favela”. Sempre que ia velejar, o fedor de peixe podre e a sujeira do local me incomodavam. Cresci escutando que aquela “favela” deveria ser retirada dali, porque “manchava” a imagem de Maceió, prejudicava o turismo etc..
Hoje, vejo muita gente assumir o discurso que a mesma elite conseguiu impor através da imprensa local e dos governantes: a “favela” precisa sair dali, a “favela” precisa acabar.
Que a favela precisa acabar parece um consenso, mas a questão é: como?
Quando menina, eu questionava: por que a prefeitura não constrói moradias no terreno e fornece condições ali mesmo para o desenvolvimento do trabalho da pesca?
O tempo passou e o questionamento foi esclarecido. Não há - e nunca houve - interesse dos governantes em solucionar o problema da favelização, ao contrário, eles usam essa situação para  justificar a expulsão da comunidade tradicional e dar lugar aos interesses da elite.
Aquela comunidade não é uma favela, ela foi “favelizada” pelo próprio Estado.
Estava morando fora de Alagoas quando soube que algumas famílias já haviam saído da Vila dos Pescadores de Jaraguá para habitar os apartamentos construídos pela Prefeitura. Pensei: e como esse pessoal vai sobreviver da pesca, se precisam sair de madrugada, quando não há transporte público, nem segurança?
Peixes e barcos dos pescadores em frente à Vila no Jaraguá. Foto: Nichole Dellabianca
Depois fiquei sabendo que alguns retornaram ao local e outros sequer haviam saído.
Cerca de 60 famílias resistiram até esta quarta-feira, 17/6, no local.
Vamos calcular? Se a Prefeitura de Maceió construísse quatro blocos de quatro pavimentos, com quatro apartamentos cada, já conseguiria acomodar a Vila inteira e ainda sobrava o espaço para fazer um centro pesqueiro mais humilde e viável, menos faraônico do que o projeto que está sendo imposto.
Por outro lado, o que vejo é um total desrespeito não só às famílias, mas à história da capital alagoana. É uma pena. É muito triste. É cruel!
Nos sites de notícias, colegas jornalistas aplaudem a suposta coragem do prefeito Rui Palmeira (PSDB) ao ordenar a desocupação da área, outros dizem que a “favela” luta para continuar sendo “favela”. Muita falta de noção ou muita maldade!
Quem luta pra continuar vivendo na miséria? Isso não existe!
Os moradores da Vila dos Pescadores de Jaraguá lutam para viver onde estão suas raízes e sua história de vida. As pessoas lutam por necessidade, pra ter condições de trabalhar, pra ter o que comer, pra ter como pagar as contas no final do mês e, principalmente, por dignidade. E, dignidade, não significa apenas ter onde morar, mas ter respeito!
Como disse Karl Marx, “o trabalhador tem mais necessidade de respeito do que de pão”.
A remoção dos moradores da Vila de Pescadores está acontecendo hoje com um forte aparato repressivo da Polícia Militar, sua cavalaria e o Bope.


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*Se souber o autor desta foto, por favor, informe nos comentários para que eu possa creditar. Acredito que essa imagem seja de autoria do Ricardo Lêdo, mas não encontrei o crédito no google.

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