domingo, 23 de junho de 2013

Nunca senti tanta vontade de levantar a bandeira vermelha

Os acontecimentos dos últimos dias me fizeram ter certeza que estou do lado certo. Tão emocionante ver as bandeiras erguidas e balançadas com tanto amor e convicção ideológica, quanto tão triste presenciar a censura vinda de uma multidão que segue palavras de ordem por parte de grupelhos fascistas e neonazistas.

Se os gritos “sem partido”, “oportunistas”, “abaixem as bandeiras” se tornaram uma agressão pra mim, que até o momento não sou militante organizada em partido, imagino como se sentem aqueles que acreditam fielmente em seu partido e estão desde o início construindo e participando das lutas dos trabalhadores do país, em alguns casos, do mundo.

Protestos apartidários, não anti-partidários

Em todos os protestos contra o aumento da passagem em São Paulo foi possível verificar a presença de partidos. Isso porque o Movimento Passe Livre, responsável pela convocação das manifestações, é formado por ativistas independentes, pessoas de organizações e de partidos políticos. Segundo sua carta de princípios “é um movimento horizontal, autônomo, independente e apartidário, mas não anti-partidário”.

A repressão policial

Participei da manifestação do dia 13 de junho, considerada pela grande mídia a mais violenta, quando a polícia reprimiu fortemente os participantes e qualquer pessoa que passasse ao redor. Eu estava lá do início ao fim.

Vi como estava linda a concentração com as bandeiras vermelhas, amarelas, coloridas e até azuis - estas últimas sim por puro oportunismo ou incoerência, já que defendem os governos. Estavam lá o PSTU, o PSOL, o PCB, o PCR, a LER-QI, grupos anarquistas e outros.

A mando dos governos de Haddad (PT) e Alckmin (PSDB), a polícia chegou com uma brutalidade impressionante fazendo daquele cenário uma verdadeira guerra civil. Bombas de gás lacrimogêneo (algumas passadas da validade, por sinal), balas de borracha, sprays de pimenta eram lançados por toda a parte, sem nenhuma responsabilidade.

Estava acuada num posto de gasolina próximo à Praça Roosevelt, junto a aproximadamente 200 pessoas, quando a polícia atirou no local. O fogo que veio em nossa direção poderia ter explodido o posto e causado a morte de centenas de pessoas sem partido e muitos militantes partidários.


O “gigante”

Depois do episódio da repressão do 4º protesto, o “gigante acordou”. Mas que gigante é esse? Uma grande massa de gente indignada com a política econômica no país, com a falta de investimento para garantir os direitos sociais fundamentais como saúde, educação, moradia e transporte público, mas especialmente, revoltada com a corrupção e a violência.

O povo brasileiro não achou bonita a atuação da polícia. O prefeito da cidade de São Paulo e o governador do estado – verdadeiros oportunistas que até então defendiam a ação da polícia – mudaram seus discursos, a grande imprensa também. No início, éramos considerados vândalos, baderneiros; depois, as manifestações passaram a ser chamadas de pacíficas tendo uma minoria de vândalos que não fazem parte do movimento.

Os protestos pela revogação do aumento da passagem tornaram-se gigantes manifestações que refletem a insatisfação da população com as prioridades dos governos. O clima que tomou conta dos participantes é de inconformação com o fato dos governos transferirem bilhões para a Copa enquanto, por exemplo, muitas pessoas morrem à espera de atendimento nas filas dos hospitais. Porém, aqueles que “acordaram” agora não se atentam para os absurdos gastos do governo com o pagamento da dívida pública. A Copa vai passar, o pagamento da dívida continua.

Nas ruas, as pessoas agora levantam cartazes com inúmeras causas que se contrapõem àquelas defendidas pela esquerda que “despertou” o “gigante”, com destaque para a redução da maior idade penal e a criminalização do aborto. Entretanto, enquanto todos puderem levantar seus cartazes, esse não é o maior problema.

O problema é que está claro que promover despolitização do “gigante” supostamente sem direção é a nova tática adotada pela direita (leia-se grande mídia e governos) para acabar com as manifestações, assim como com qualquer possibilidade de crescimento da consciência de classe e, obviamente, do pensamento de esquerda revolucionária (que não inclui o PT, nem seus aliados). Dessa forma, a direita tenta tomar a direção das mobilizações.

A tática anterior foi burra ao usar a violência. Agora, a violência não vai mais partir nitidamente do Estado, mas sim, vai ser estimulada para partir do povo revoltado. Acontece que esse povo “sem partido”, principalmente quem começou a participar das manifestações depois do dia 13, não sabe ainda o seu alvo.

Muitos acreditam que tirar Dilma do governo é a solução, como se a corrupção tivesse iniciado com o PT, apagando da história os escândalos durante os governos Collor (PRN, atual PTC), FHC (PSDB) e outros. Querem o impeachment de Dilma, e quem vão colocar em seu lugar na presidência? A luta deve ser contra o governo sim, mas através de um golpe militar?

17 de junho

No 5º e maior protesto contra o aumento das passagens, o histórico dia 17 de junho, houve um tumulto na concentração, onde os contrários a participação dos partidos nas mobilizações gritaram “abaixem as bandeiras”, “oportunistas” e insistiram na palavra de ordem “sem partido”.

Uma garota me chamou de fascista. Eu estava ao lado dela, ao lado dos lutadores. A moça não me conhece, não sabe da minha dedicação aos movimentos, e me agrediu verbalmente apenas porque eu disse para minha colega: “acho que o PSTU exagerou na quantidade de bandeiras”. Eu não falei que sou contra as bandeiras, apenas avaliei que, taticamente, levantar todas aquelas bandeiras ali não era prudente.

No percurso da manifestação percebi que estava equivocada. Primeiro, porque, o que são menos de 100 bandeiras no universo de 100.000 indivíduos? Segundo, e mais importante, porque levantar ou não as bandeiras é uma questão política que não diz respeito à eleição, mas sim, a democracia, a liberdade ideológica e a defesa de um programa, no caso, socialista.

Ainda que por uma questão tática, eu estava equivocada ao querer restringir o direito dos militantes se agarrarem às suas bandeiras, que são o símbolo daquilo que acreditam. Ao mesmo tempo, isso não é motivo para a postura ofensiva da jovem militante que me chamou de fascista.

É preciso saber quem são os fascistas e quem – por despolitização, falta de informação, contradição ou mesmo purismo – entra na “onda” deles. A partir daí, vale a pena dialogar com todos, exceto sujeitos como os anticomunistas assumidos, esses “não passarão!”.

Quem puxa “sem partido”

Conseguimos derrubar o aumento da tarifa do ônibus, metrô e trem em São Paulo. A revogação também aconteceu em várias outras cidades. Mas, Para o desprazer do PT, do PSDB e seus aliados, a enxurrada de protestos não acabou. Felizmente, o processo de lutas continua.

Na quinta-feira, 20, exatamente uma semana após a atuação vergonhosa da polícia militar e no dia seguinte ao anúncio de Alckmin e Haddad, milhares voltaram às ruas de São Paulo para comemorar a vitória e mostrar que ainda não foi o suficiente para acabar a insatisfação da população.

Diante desta realidade favorável para a esquerda, os fascistas estão cada vez mais organizados. Eles chegaram à Avenida Paulista preparados agredir comunistas e para expulsar os partidos da manifestação. À frente dessa iniciativa estavam skinheads, Carecas e, possivelmente, infiltrados dos governos. De um lado da avenida, a palavra de ordem era “sem partidos”; do outro lado, “sem censura, acabou a ditadura”.

Os fascistas não se contentaram em ficar apenas disputando a opinião da população com palavras de ordem nacionalistas, partiram para a violência física. Rasgaram bandeiras de partidos e até de entidades, bateram em militantes – que, obviamente, se defenderam como puderam – e, mesmo após as bandeiras terem sido abaixadas, as agressões e ameaças continuaram.

Foi doloroso ver muita gente repetindo os gritos da extrema direita, presenciar camaradas de luta se machucando, símbolos da ideologia libertária sendo rasgados e queimados. Ao mesmo tempo, foi gratificante estar ali para ter a certeza de que aqueles militantes de esquerda não recuam em suas convicções. Admirável o zelo e o carinho do líder do PSTU, Zé Maria, com os companheiros, assim como a solidariedade do professor Valério Arcary e da candidata do partido à prefeitura, Ana Luiza, entre tantos outros dirigentes que também marcaram presença neste e em outros protestos.

Naquele momento, percebi que chegou a minha hora de tomar partido para além da filiação. O meu partido está presente em todas as lutas dos trabalhadores. Meu partido é o PSTU.



“As lutas são apartidárias, mas não são monolíticas, são plurais. À exceção dos reacionários, marchamos todos juntos, não importa a ideologia, pelas reivindicações comuns que nos unem. Cada um abraça sua ideologia, seu programa e, se quiser, um partido. Sim, porque na vida, é preciso, mais cedo ou mais tarde, tomar partido. Mas, dentro do movimento ninguém pode impedir os outros de apresentar sua identidade, ou de expressar sua posição. O antipartidarismo, mais grave quando se dirige contra a esquerda socialista, é uma ideologia reacionária e tem nome: chama-se anticomunismo. Foi ela que envenenou o Brasil para justificar o golpe de 1964 e vinte anos de ditadura”. (Valério Arcary)

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