domingo, 10 de abril de 2011

Eu vou morrer e esta terra não sai

Por: Carlos Lima (*)


Quantas vezes, nas minhas idas ao acampamento Mumbuca, no município de Murici, ouvi os lamentos do acampado Cícero Vicente que entrou na luta para conquistar um pedaço de terra em 1999. Era comum ao me encontrar com o velho Cícero ouvir a seguinte frase: “Eu vou morrer e esta terra não sai”.

Acolhedor, sempre abria a porta do barraco para todos, logo oferecia um café quente e começava contar “causos” e a mostrar a produção, se orgulhava de ter 78 anos e trabalhar na enxada, exibia as mãos calejadas e falava do plantio de macaxeira, milho, batata, cana caiana, verdura, criação de galinhas e de peixes. Forte, descendente de africanos e dono de um par de olhos azuis, seu Cícero além de ser bom de enxada e de luta era um exímio dançarino, sempre elegante nos eventos gostava de usar chapéu e camisas de manga comprida, era uma figura.

Seu Cícero labutava em duas frentes, a primeira de alcançar a liberdade através da conquista da terra e a segunda contra um câncer no intestino. Lutou bravamente e o tempo o derrotou. Na última terça-feira (05.04) o velho Cícero foi sepultado no cemitério São Luiz no Tabuleiro, sem alcançar a terra prometida.

Ver o caixão descendo, veio logo em minha mente o poema “Funeral de um lavrador” (1966), uma composição de João Cabral de Melo Neto e Chico Buarque: “É a parte que te cabe deste latifúndio. Não é cova grande, é cova medida. É a terra que querias ver dividida. É uma cova grande pra teu pouco defunto, mas estarás mais ancho que estavas no mundo”.

A morte do velho Cícero após 12 anos de luta é uma denúncia grave da morosidade do governo em realizar a reforma agrária. A burocracia, a corrupção e a falta de vontade política impediram o sonho dele e de milhares de sem terra que estão acampados em rodovias e fazendas, esperando uma terra mais larga que uma cova.

Tantos companheiros nossos partiram na condição de sem terra, lembro da Lia lá do acampamento São Sebastião, a Josiete na Flor do Bosque, seu Baltazar no Gordo, Simoa também da Mumbuca e Laurizete no acampamento Nossa Senhora Mãe dos Pobres. Deve ter sido uma festa o encontro do seu Cícero com esta gente na morada definitiva.

A terra, Cícero Vicente, não saiu, mas você foi mais um a entrar na terra. Na morada preparada por Deus tem lugar para você e para todos os pobres que sofreram aqui, como afirmou Jesus (Jo 14,1-6). Descansa em paz!


*É historiador e coordenador da Comissão Pastoral da Terra.


O texto foi publicado no Jornal Gazeta de Alagoas (08.04.11) e no Blog da CPT Alagoas.

Um comentário:

  1. Eita reforma agrária difícil! Sem o compromisso politico do governo, o povo sofre as duras penas, muitos morrem e não conseguem o sonho da retomada das terras. Reforma agrária Já!

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