quinta-feira, 31 de março de 2011

Povo Xukuru-Kariri aguarda desintrusão de suas terras em Palmeira dos Índios

Parceiros dos índios foram a uma reunião para apoiá-los diante de ameaças de fazendeiros e políticos do município, que não aceitam a demarcação das terras indígenas.
Reunião na Aldeia Mata da Cafurna
Por volta das 10:30h de ontem, 30, iniciou-se uma reunião na aldeia Mata da Cafurna, situada no município de Palmeira dos índios, Alagoas. O objetivo foi discutir a conjuntura da demarcação das terras indígenas na região.
Segundo os índios, cerca de 36.000 hectares de terra pertenciam a eles. Um novo estudo indicou que a área era 14.000. Recentemente, eles aceitaram a proposta de receber aproximadamente 7.000 hectares. Decisão sábia, segundo o analista pericial de antropologia do Ministério Público, Ivan Soares, porque os eles corriam o risco de perder ainda mais área. Os Xukurus informaram que a demarcação já aconteceu, falta apenas que a União indenize os posseiros e fazendeiros. Eles denunciam que estão sofrendo ameaças constantes destes últimos, inclusive, através dos meios de comunicação locais, com destaque para a rádio, que sofre influência do prefeito da cidade.
Pajé Antônio Sebastião
O Pajé Antônio Sebastião contou a história do povo Xukuru-Kariri, falou do descobrimento do Brasil, quando os índios começaram a ser dizimados e expulsos de suas terras; das tentativas de retomadas na região, que segundo ele, já haviam sido iniciadas em 1822 e; da demarcação das terras, discutida desde a década de 1970. Ele contou que seus "parentes" (como tratam seus semelhantes) perderam espaço para continuar a tradição e foram impedidos de realizar os rituais.     
  
O que diz Funai e Ministério Público sobre o assunto?
Frederico Campos explica o processo
Fredecido Campos, coordenador da Funai em Maceió, explicou que o processo de demarcação e indenizações já está em Brasília. Foram feitos estudos antropológicos que confirmam a versão dos Xukurus. O que falta é fazer a delimitação física, e posterior, a desintrusão, que é retirar e indenizar os posseiros que hoje ocupam as terras demarcadas.
Para Ivan Soares, analista pericial de antropologia do Ministério Público, que tem experiência na luta das comunidades indígenas, "a demarcação das terras Xukurus-Kariris é uma das mais difíceis do país". Ele falou que o órgão indigenista carrega uma responsabilidade grande nesse processo, e que a presença dos parceiros como os sindicatos é preciosa. “É preciso entender que o momento desse processo não é o mesmo dos últimos 6 meses”, disse Soares, explicando que a situação mudou a partir da publicação da portaria N°4.033, que declara a posse permanente do grupo indígena Xukuru-Kariri a Terra Indígera Xukuru-Kariri "com superfície aproximada de 6.927 (seis mil novecentos e vinte e sete hectares) e perimetro de 45 km (quarenta e cinco quilômetros)", conforme documento oficial, publicado em 14 de dezembro de 2010.
Parte da terra do povo Xukuru-Kariri

Questão política  
Ivan Soares fala na reunião
Segundo o mesmo, o valor das indenizações é muito baixo e não garante que os indenizados tenham condições de adquirir outro pedaço de terra. No entanto, para o antropólogo, os grandes proprietários têm revelado que estão conscientes que estão perdendo o processo. Ele acredita que as aldeias precisam discutir e entrar num consenso de quem terá prioridade. Em sua opinião, aquelas que têm mais necessidades e não tem mais como crescer e onde produzir devem ter prioridade. Primeiro, a Fazenda Canto, em seguida as demais: Mata da Cafurna, Cafurna de baixo, Coité, Capela, Amaro, e por último, Boqueirão, que é a menor aldeia.
Jorge Vieira, do gabinete do Deputado Judson Cabral, destacou que é preciso esclarecer a sociedade que “os índios não estão invadindo nada, eles estão reivindicando seus direitos históricos e constitucionais", frisou. O representante do deputado informou que Judson solicitou, para o dia 18 de abril, uma audiência da Assembléia Legislativa para discutir o assunto.
 
Engajados na luta do povo indígena
Escola da Aldeia Mata da Cafurna, onde aconteceu a reunião, no alto de serra em Palmeira dos Índios.
O encontro contou com a presença de, além de representantes de 6 das 7 aldeias do município; membros da Funai; do Ministério Público;  estudantes de direito e de jornalismo do Cesmac; professores da Ufal e do Cesmac; Diretório Central dos Estudantes da Ufal; Movimento Bairros, Vilas e Favelas; Sindicato dos Servidores Públicos de São Miguel dos Campos; Central Geral dos Trabalhadores do Brasil; Sindicato dos Servidores Públicos Federais no Estado de Alagoas e; outros apoiadores da causa indígena.
Texto e fotos: Lara Tapety

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