quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Suavíssima

Pôr do Sol em croa no Velho Chico. Por Lara Tapety
 
Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
No céu do outono, anda um langor final de pluma
Que se desfaz por entre os dedos, vagamente...

Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma...
Fica-se longe, quase morta, como ausente...
Sem ter certeza de ninguém... de coisa alguma...

Tem-se a impressão de estar bem doente, muito doente,
De um mal sem dor, que se não saiba nem resuma...
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
A solitude nebulosa e irreal do ambiente...

Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
E silenciosos, como alguém que se acostuma
A caminhar sobre penumbras, mansamente,

Meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma...
Põem-se a tecer frazes de amor, uma por uma...
E os galos cantam, no crepúsculo dormente...


Cecília Meireles

Nenhum comentário:

Postar um comentário