sexta-feira, 24 de março de 2017

Não digam “Você está melhor sem ele” – Parem de dar esse poder aos homens!



Comumente, tenho observado pessoas atribuírem ao término de uma relação a mudança positiva do comportamento de mulheres. Às vezes, isso também ocorre com homens, que passam cuidar mais da aparência depois de um “pé na bunda”. Mas, no caso das mulheres, os comentários sempre vêm acompanhados de uma dose de machismo.

Enquanto os comentários sobre a suposta mudança dos homens depois do fim de um relacionamento, geralmente, são pautados pelo fato de eles terem retomado exercícios físicos e idas às baladas, os comentários sobre as mulheres dizem respeito, além de sua aparência física, ao seu estado de espírito, sua autoconfiança e sua independência. Os homens jamais têm sua capacidade, autonomia e estabilidade emocional questionados. Na verdade, pouco se vê alguém trazer à tona defeitos da maioria deles, como a imaturidade e o egoísmo. Quem já escutou “Nossa! Esse moço tá tão mais maduro e altruísta!”, depois de uma separação, pode jogar na Mega-Sena!
 
Sobrecarga. Charge de Franziska Becker, extraída do livro Último Aviso

São as mulheres inferiorizadas nas relações, durante e depois delas, abusivas ou não. Num relacionamento heterossexual, as mulheres são inviabilizadas, porque é a figura do homem que tem destaque na sociedade patriarcal. Mesmo que trabalhem, cuidem do lar e dos filhos, são consideradas dependentes, seja financeiramente ou emocionalmente.

Pensando nisso: – É só comigo que, quando estou solteira, me convidam diretamente para uma festa, mas quando estou casada, alguns pedem para meu marido me passar o recado do convite?

O machismo se reproduz com a ideia: Mulher que se separa deixa de ser dependente, insegura e apagada. Homem que se separa continua - como sempre - independente, livre e em destaque, e passa a somar outros adjetivos.

Usam as palavras “brilhante”, “radiante”, “segura” e “independente” para descrever o novo estado da mulher, como se ela não fosse nada disso todo o tempo em que estava comprometida. Geralmente, o que muda mesmo é o olhar sobre ela, mais enxergada quando não há um homem supostamente ofuscando seu brilho. Quem ofusca o brilho da mulher não é o homem, mas o machismo de quem só enxerga o valor de uma mulher quando ela se esforça para provar isso.

O pensamento de que a mulher só está melhor porque terminou um relacionamento, em alguns casos, ao invés de contribuir com sua autoestima, transfere um poder inexiste ao seu companheiro. Quando responsabilizam o homem pelo estado de espírito da mulher, seja dizendo que ela está feliz porque está sem ele ou que está feliz porque está com ele, estão colocando-a numa situação de inferioridade, como se o homem tivesse o controle da sua vida. É uma desconstrução cruel do protagonismo da mulher!
 
Falta de amor. Charge de Franziska Becker, extraída do livro Último Aviso
Afinal, se apenas quando estão solteiras as mulheres conseguem ficar aparentemente tão bem é porque os homens com quem elas se relacionavam tinham o poder de torna-las sem brilho, infelizes, inseguras e dependentes.

Se não bastasse a culpabilização da mulher pelo fim dos relacionamentos, falam como se elas tivessem sua autoestima definida por eles! Não é só questão de se sentir bem com seu corpo, mas também de se sentir capaz, valorizada e respeitada. De fato, o machismo detona com a nossa autoestima. Mas, ninguém tira de nós quem somos. Somos quem somos, independente de qualquer macho.

É normal que, numa uma relação desgastada, o casal esteja insatisfeito e acomodado. Vale destacar: o casal. O término dá uma sacudida na vida de ambos. A mudança de comportamento é notável tanto em mulheres quanto em homens. Isso nem sempre é sinônimo de felicidade. Às vezes, é uma capa protetora para esconder sentimentos.

Independente de gênero, algumas posturas mudam quando estamos namorando ou casados, especialmente quando podemos agir de acordo com nossas vontades e não representar um papel para atrair elogios ou conquistar alguém. Quando terminamos, nossa autoestima fica abalada e fazemos de tudo por um afago nela. Mas, quando estamos num relacionamento saudável, não precisamos aparentar nada. Dane-se o que os outros pensam! O importante é ser feliz.

O fato é que, nós, mulheres, somos mais observadas quando estamos solteiras. Nos veem mais “fortes e independentes”. No meu caso, eu, mãe solteira, era considerada assim quando morava sozinha com meu filho e meus cachorros. Deixei de ser porque casei? Claro que não! O machismo é que faz confundir amor e apoio com fraqueza e dependência.
 
Sex Shop. Charge de Franziska Becker, extraída do livro Último Aviso
Não estou melhor sem ou com ele. Estou como sou. E ele não tem poder sobre minha felicidade e minha vida. Então, quando vocês verem uma companheira dando a volta por cima após o fim de uma relação, ao invés de falar “Você está melhor sem ele”, digam simplesmente: “Você está ótima!”.

Não deixamos de ser quem somos estando num relacionamento ou não. Talvez, por uma questão de restabelecer a autoestima, nos esforçamos um tanto mais para esconder o cansaço da tripla jornada, que deixamos transparecer quando não precisamos ficar posando para que as pessoas achem: “Nossa, essa moça tá tão mais radiante e segura!”.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Filme premiado em Cannes denuncia o desmonte da previdência na Inglaterra


I, Daniel Blake tem tudo a ver com o debate sobre a reforma da previdência e a privatização da seguridade social brasileira. Sua história retrata o drama de um carpinteiro de meia-idade que luta para conseguir auxílio do estado após sofrer um ataque cardíaco.

O filme, como todos do britânico Ken Loach, tem um cunho social e demonstra a face cruel do capitalismo, a violação à dignidade humana. É uma forte denúncia sobre a falência do sistema previdenciário da Grã-Bretanha, uma das vítimas do neoliberalismo na Europa.

Aos 80 anos e com muita disposição, o cineasta aponta em suas entrevistas que a situação atual no Reino Unido é o resultado lógico da chegada ao poder da (ex-primeira-ministra) Margaret Thatcher, em 1979, que liderou a campanha neoliberal no continente europeu.

Na obra, escrita por Paul Laverty, Daniel Blake (Dave Johns) enfrenta a extrema burocracia estatal que o impede de ter acesso ao seu direito. Em meio a suas idas ao órgão de seguridade social (Departamento de Trabalho e Pensões), o carpinteiro recém-viúvo intervém, sem sucesso, por Katie (Hayley Squires), mãe solteira despejada com os dois filhos de um conjugado em Londres.

Katie foi despachada pelo Serviço Social para uma cidade a centenas de quilômetros da capital e também não possui condições financeiras para se manter. Eles se ajudam como podem, mas terminam sendo punidos pelo governo, que desmantelou o serviço público, privatizou, terceirizou e criou rígidas regras para obtenção de benefícios, sob a desculpa de evitar fraudes no sistema previdenciário. 

Em todo o Brasil, o público sai das salas de cinema com “Fora Temer” na ponta da língua. Uns, gritam, transformando a sessão num ato político; outros não seguram a emoção e choram; mas, independente do posicionamento político em relação ao governo, é certo que a ampla maioria passa a refletir sobre o futuro da previdência brasileira.

Grande vencedora do Festival de Cannes no ano passado, com o prêmio Palma de Ouro (melhor filme) e outros, a película de Ken Loach está em cartaz nos principais cinemas de arte do Brasil.

 


ONDE ASSISTIR?
 
Em São Paulo:
Cine Caixa Belas Artes | Consolação
16h20 / 20h50
Kinoplex Itaim | Itaim Bibi
14H10
CineARTE | Cerqueira Césa
14h40 / 19h20
Espaço Itaú de Cinema – Augusta | Cerqueira César
14h00 / 16h20 / 21h40
Reserva Cultural | Bela Vista
15h00 / 17h50 / 19h20 / 21h20
 
Em Maceió:
Centro Cultural Arte Pajuçara | Pajuçara
16h00 /20h30 (Exceto 23 e 25/01) / 17h10 (Somente 25/01)